A
área em questão abarca Pará,
Amapá, Roraima, Maranhão, Tocantins
e um pedaço do Amazonas. Trata-se da metade
naturalmente mais seca dos 5 milhões de quilômetros
quadrados da Amazônia Legal. E também
uma das mais desmatadas: de 18% a 20% das florestas
ali já cederam lugar à agropecuária,
contra 15% da média amazônica total.
A
conclusão é de um estudo feito pelo
Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais),
com participação de pesquisadores
das universidades federais de Minas Gerais e de
Viçosa. O trabalho, que será publicado
em setembro no periódico "Geophysical
Research Letters", cruza pela primeira vez
modelos climáticos computacionais com cenários
realistas de desmatamento.
Ele
aponta que, além do aquecimento global, a
destruição da floresta também
pode levar à chamada savanização,
processo no qual o clima quente e úmido típico
da Amazônia dá lugar a um clima quente
e seco característico do cerrado. Nesse clima,
a vegetação densa da floresta tropical
não sobrevive --e cede lugar à savana.
O
conceito de savanização foi proposto
em 2003 por Marcos Oyama e Carlos Nobre, do Inpe.
Com base em modelos que uniam clima e vegetação,
eles estimaram que o aumento da concentração
de gases-estufa poderia levar a floresta a um novo
"estado de equilíbrio".
Os
cientistas sabiam que o desmatamento também
tem potencial "savanizante". Isso porque
o clima na Amazônia depende das árvores,
que regulam a umidade e a quantidade de luz solar
que chega ao solo. Quanto menos floresta, em tese,
mais quente e seca será a região.
Só que até agora uma questão
permanecia em aberto: quanto de desmatamento provocaria
essa mudança de equilíbrio?
A
pergunta era difícil de responder com os
modelos usados até então. "Eles
eram aleatórios, alimentados ou com um cenário
extremo --de 100% de desmatamento-- ou com um total
que o pesquisador chutava", disse à
Folha Gilvan Sampaio, climatologista do Inpe que
liderou o novo estudo.
Destruição
gradual
Para atacar a questão, Sampaio e seus colegas
usaram as estimativas de desmatamento produzidas
pelo grupo de Britaldo
Soares Filho, da UFMG. "Esta é a
primeira vez que são utilizados cenários
futuros de mudanças no uso da terra que se
baseiam no que realmente vem ocorrendo na Amazônia.
Com isso, podemos analisar como será o comportamento
da chuva, temperatura etc. à medida que a
Amazônia é gradualmente desmatada",
diz o cientista do Inpe.
O
modelo também tentou capturar as diferenças
de temperatura e precipitação causadas
pela substituição da floresta por
soja ou pasto, os dois usos mais comuns (e lucrativos)
da terra na região.
O
que as simulações em computador mostram
é que o clima começa realmente a mudar
quando a taxa de desmatamento é maior do
que 40%.
A redução mais grave no total de chuvas
ocorre nos meses de verão amazônico
(junho, julho e agosto) e nas simulações
nas quais a mata é substituída por
soja. Segundo Sampaio, isso acontece porque o ciclo
anual da soja deixa o solo mais claro, aumentando
a incidência de radiação solar.
Folha
de S.Paulo