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agora há pouco a sessão oficial competitiva de "Tropa
de Elite" no Festival de Berlim. A platéia reagiu com
aplausos moderados. Mas isso não necessariamente significa
desapreço ao filme. Quando perguntei ao espectador alemão
sentado ao meu lado se ele não havia gostado do filme, já
que aplaudia com pouco entusiasmo, a resposta foi: "Gostei,
sim. É um filme muito pesado, mas acho que não poderia
ser de outro jeito. Se você quer mudar essa realidade, tem
de mostrá-la com todas as letras". |
Foto:
John Macdougall/France Presse
Wagner
Moura, José Padilha e
Maria Ribeiro, em Berlim |
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O tom
sóbrio foi também o que Padilha adotou quando subiu
ao palco, antes de chamar sua equipe. "Muito obrigado. Estamos
todos muito honrados de estar aqui no Festival de Berlim. Estamos
honrados, mas obviamente não podemos estar felizes, por causa
desta situação no Brasil." Em seguida, ele chamou
ao palco os integrantes da equipe que vieram a Berlim _os atores
Wagner Moura (intensamente aplaudido) e Maria Ribeiro (única
mulher no grupo, recebeu do festival um delicado arranjo de flores),
o fotógrafo Lula Carvalho, o assistente de direção
Rafael Salgado, o produtor Marcos Prado, o distribuidor internacional
Harvey Weinstein e o co-produtor argentino Eduardo Costantini, entre
outros.
"Não
tenho muita experiência em sessões de festival, mas
achei que foi boa", comentou Wagner na saída, antes
de ser abordado por uma família de fãs brasileiras
_duas filhas adolescentes com a mãe, que frisou: "A
mãe também quer foto [ao lado do ator]".
Durante
a sessão, o público teve um único momento de
descontração. A risada foi grande na cena em que,
durante o curso de treinamento dos novos oficiais do Bope, o Capitão
Nascimento pronuncia a palavra "estratégia" em
diversas línguas _com pequeníssimas variações.
Quando ele fala em alemão, o público gargalhou.
A
primeira sessão de "Tropa de Elite" em Berlim,
de manhã, para a imprensa, foi marcada por um atropelo. Diferentemente
do que acontece com todos os outros longas, a cópia com legendas
em inglês não estava disponível _por razões
ainda não esclarecidas. Foi exibida uma versão legendada
em alemão, que é preparada para a projeção
na sessão oficial. A alternativa dos jornalistas que não
falam nem alemão nem português era usar tradução
simultânea em fones de ouvido, que o festival disponibiliza.
Mas, com seus diálogos sobrepostos e velozes, "Tropa
de Elite" não é a obra mais indicada para esse
tipo de expediente. Jornalistas que usaram o fone comentavam que
ficaram sem a tradução de parte do conteúdo
do filme.
Na
entrevista coletiva após a projeção da manhã,
Padilha estava afiado. Criticou a polícia, os traficantes,
a crítica cinematográfica. Disse que fez esse filme
para mostrar que é insustentável a situação
de um país em que a polícia acredita que violência
se combate com mais violência. Ele respondeu perguntas sobre
a pirataria, a reação do público brasileiro
ao filme e disse (em três ocasiões) que é a
favor da legalização das drogas.
Ao
abordar o debate provocado por "Tropa de Elite" no Brasil,
que classificou como o maior da história do país em
torno de um filme, ele disse que temos o hábito de interpretar
de modo distinto a cinematografia americana e nossa própria.
"Quando Scorsese, que é um dos meus ídolos como
diretor e esteve neste festival [com "Shine a Light",
o filme de abertura, hors-concours] faz um filme como 'Os Bons Companheiros',
ninguém diz que ele é pró-máfia. Eu
fui acusado de ser radical de direita porque fiz 'Tropa de Elite',
um filme com o ponto de vista de um policial, e fui acusado de ser
radical de esquerda quando fiz 'Ônibus 174', com a perspectiva
do seqüestrador [do coletivo no Rio, Sandro Nascimento]".
Escrito
por Silvana Arantes (em Berlim)
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