Kagura é uma forma de teatro e dança característica
do xintoísmo e que se realiza em cerimónias e festas
importantes.
As origens da Kagura são muito antigas e estão ligadas
às do Teatro Noh. Originalmente era realizada no palácio
do Imperador por sacerdotizas, representando o mito do deus do
sol, Amaterasu.
Estas danças no palácio imperial eram chamadas
mikagura , por oposição às satokagura, versões
populares da kagura que se realizavam fora do palácio.
Nos Santuários Xinto, a kagura realiza-se habitualmente
ao ar livre, num palco que é por vezes coberto, de forma
quadrada e com varandins, conhecido como Hirabutai.
As formas e conteúdos da satokagura variam radicalmente,
consoante as regiões, locais e os momentos em que é
realizada, mas podem ser grosseiramente divididas em quatro géneros:
Miko Kagura: várias mulheres (Miko) dançam com leques
e sinos, representando os antigos rituais em se considerava que
as miko eram possuídas pelo kami e falavam em seu nome,
actuando como oráculos.
Izumo-ryu kagura (kagura estilo Izumo): tratam-se representações
de mitos e lendas sagradas, utilizando máscaras, tal como
no Teatro Noh. É muito comum na região de Chugoku
e no Japão Ocidental.
Ise-ryu kagura (kagura estilo Ise): Representa um ritual de purificação
através da água a ferver (yudate). Daí que
também é conhecida por yudate kagura. Está
ligada aos rituais dos santuários exteriores do grande
Santuário Ise.
Shishi kagura (ou kagura do leão): vários bailarinos
utilizam uma máscara de leão, que se considera como
sendo o corpo sagrado do kami (Shintai).
Apesar destas e doutras variações, a kagura apresenta
normalmente uma estrutura em três partes: a recepção
do kami, a oferta de entretenimento e, por fim, a despedida com
o regresso ao honden do objecto sagrado (Shintai).
As várias formas da kagura têm vindo a perder o
carácter de solenidade religiosa e a adquirir um tom mais
ligeiro e de entretenimento e são realizadas em todas as
festas mais importantes do calendário xinto.
Fantasias
que chegam a custar US$ 30 mil, enredos ingênuos e maniqueístas
e sons quase ininterruptos de tambores são os atrativos do
kagura, modalidade de teatro surgida há mais de mil anos
no Japão e que ainda movimenta campeonatos grandiosos em
Hiroshima e em Shimane, onde é mais praticada.
Os
representantes brasileiros do kagura são heterodoxos. Segundo
a coordenadora Aiko Tachibana, 59, a maioria dos 15 jovens integrantes
do grupo não é fluente em japonês --dois nem
são descendentes. "Acabamos cortando algumas falas para
facilitar o trabalho dos atores e o entendimento do público,
já que os textos são em japonês."
O
kagura surgiu no século 11 como um ritual xintoísta
realizado no palácio do imperador após a época
da colheita, em agradecimento à deusa do sol. Quando uma
versão popular do teatro passou passou a ser encenada diante
do palácio, o povo copiou a idéia. Os trabalhadores
da roça eram os atores e músicos e passavam as histórias
e as músicas pela fala --não havia documentos nem
partituras.
Hoje,
alguns textos estão publicados, mas grande parte dos artistas
ainda trata a arte como um segundo emprego, de acordo com Tachibana.
"O kagura exige atores jovens, porque as fantasias têm
três camadas, calça e máscara e chegam a pesar
20 kg. E, usando tudo isso, o ator ainda precisa dançar",
explica a coordenadora.
Tachibana
se espanta ao ser questionada sobre quem vence as batalhas entre
bem e mal, no kagura. "O bem, claro. Sempre. Ninguém
quer ver o mal vencer."
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