Meu
primeiro contato com Lille foi noturno, horas depois do meu desembarque
no aeroporto Charles de Gaulle em Paris.
A idéia que eu fazia da cidade antes, concebida por fotos
encontradas na internet e algumas visitas à cidade pelo Google
Earth, era bastante diferente do que eu vi naquela noite. Acreditava
que iria encontrar uma metrópole moderna, agitada, talvez
até feia e abandonada em determinados pontos, mas encontrei
uma metrópole pacata (o que me espantou pela contradição)
bem cuidada, conservada desde a idade média, e bastante silenciosa.
A data da minha chegada, 6 de dezembro, coincidiu com o último
mês do ano que foi dedicado à cultura indiana (porque
cada ano na França é dedicado à cultura de
um outro país escolhido por eles – o ano do Brasil
foi o de 2005) e, perto do Natal, a cidade estava toda iluminada.
A fachada da Gare Lille Flandres, uma das duas estações
importantes da região, exibia um iluminação
noturna que imitava a arquitetura indiana. Na rua em frente a ela,
a Faidherbe, elefantes de mentira ornavam as calçadas.
Mas apesar de toda essa ornamentação o que mais me
chamava a atenção naquele passeio noturno, do ponto
de vista fotográfico, era a simplicidade das ruas menores
e estreitas da região medieval da cidade, porque ali havia
qualquer coisa que sugeria a idéia de que o tempo tinha sido
congelado. Não tanto pela idade dos edifícios, mas
muito mais pelo fato de que a atmosfera dos séculos XVIII
e XIX parecia ainda brilhar no chão molhado pela chuva fina,
mesmo quando passavam carros ou pessoas estilosas, moderninhas.
Foi quando eu percebi que deveria saber captar a quietude de uma
cidade como Lille, com a ambientação melancólica
característica e os modos contidos dos habitantes, através
da luz. Uma atmosfera que se diferencia da nossa justamente por
surgir da relação que os lilloises têm com o
silêncio, ou seja, o brasileiro médio, ao meu ver,
é mais musical, mais ruidoso, gesticula mais e é mais
expansivo, mesmo numa cidade grande e com tantos pontos em comum
com a cultura européia como São Paulo. Já em
Lille a coisa se configura de uma outra forma. Os gestos são
mais tímidos, os olhares mais baixos e o ar de cada uma das
pessoas soa mais introspectivo.
Foi aí que incorporei um típico morador de Lille e
optei por compor um auto-retrato na minha primeira noite. Nele eu
seria um personagem, mais um dos passantes noturnos vindos de não-se-sabe-onde
e a destino de qualquer-lugar. Deixei a câmera no modo timer
e me posicionei como quem estava andando, no enquadramento ideal
para que em segundo plano ficasse a rua onde eu estava, esmorecendo
no infinito completamente escuro.
Depois de um dos resultados, o que definitivamente me agradou, guardei
a câmera pelo resto da noite e só fui tirá-la
da bolsa no dia seguinte, por ter me sentido satisfeito ao ter conseguido
captar a essência do que seria a minha relação
com a (para mim nova) cidade.
Diego
Carrera
diego.jazzboy@gmail.com |