São Paulo, de 2008
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   08/09/2007  
Gare Lille Flandres
Foto de Diego Carrera
Embu /2007
 

Meu primeiro contato com Lille foi noturno, horas depois do meu desembarque no aeroporto Charles de Gaulle em Paris.

A idéia que eu fazia da cidade antes, concebida por fotos encontradas na internet e algumas visitas à cidade pelo Google Earth, era bastante diferente do que eu vi naquela noite. Acreditava que iria encontrar uma metrópole moderna, agitada, talvez até feia e abandonada em determinados pontos, mas encontrei uma metrópole pacata (o que me espantou pela contradição) bem cuidada, conservada desde a idade média, e bastante silenciosa.

A data da minha chegada, 6 de dezembro, coincidiu com o último mês do ano que foi dedicado à cultura indiana (porque cada ano na França é dedicado à cultura de um outro país escolhido por eles – o ano do Brasil foi o de 2005) e, perto do Natal, a cidade estava toda iluminada. A fachada da Gare Lille Flandres, uma das duas estações importantes da região, exibia um iluminação noturna que imitava a arquitetura indiana. Na rua em frente a ela, a Faidherbe, elefantes de mentira ornavam as calçadas.

Mas apesar de toda essa ornamentação o que mais me chamava a atenção naquele passeio noturno, do ponto de vista fotográfico, era a simplicidade das ruas menores e estreitas da região medieval da cidade, porque ali havia qualquer coisa que sugeria a idéia de que o tempo tinha sido congelado. Não tanto pela idade dos edifícios, mas muito mais pelo fato de que a atmosfera dos séculos XVIII e XIX parecia ainda brilhar no chão molhado pela chuva fina, mesmo quando passavam carros ou pessoas estilosas, moderninhas.

Foi quando eu percebi que deveria saber captar a quietude de uma cidade como Lille, com a ambientação melancólica característica e os modos contidos dos habitantes, através da luz. Uma atmosfera que se diferencia da nossa justamente por surgir da relação que os lilloises têm com o silêncio, ou seja, o brasileiro médio, ao meu ver, é mais musical, mais ruidoso, gesticula mais e é mais expansivo, mesmo numa cidade grande e com tantos pontos em comum com a cultura européia como São Paulo. Já em Lille a coisa se configura de uma outra forma. Os gestos são mais tímidos, os olhares mais baixos e o ar de cada uma das pessoas soa mais introspectivo.

Foi aí que incorporei um típico morador de Lille e optei por compor um auto-retrato na minha primeira noite. Nele eu seria um personagem, mais um dos passantes noturnos vindos de não-se-sabe-onde e a destino de qualquer-lugar. Deixei a câmera no modo timer e me posicionei como quem estava andando, no enquadramento ideal para que em segundo plano ficasse a rua onde eu estava, esmorecendo no infinito completamente escuro.

Depois de um dos resultados, o que definitivamente me agradou, guardei a câmera pelo resto da noite e só fui tirá-la da bolsa no dia seguinte, por ter me sentido satisfeito ao ter conseguido captar a essência do que seria a minha relação com a (para mim nova) cidade.

Diego Carrera
diego.jazzboy@gmail.com

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