São Paulo, de 2008
    Crônicas


    04/08/2008

O seqüestro do boneco

Por O Lingüinha – Um Jornal Inteligente – Ano IV – nº 27

 

A violência não está somente nos grandes centros, como São Paulo e rio de Janeiro, as pequenas cidades, citando como exemplo nossa pequena e bucólica Embu das Artes, também já começam a sofrer com a sanha dos mal feitores que grassam em nosso meio.

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Dia 15/07/2008, um boneco desses de propaganda que ficam na gente de comércios, foi seqüestrado. Estava lá todo equipadinho, já que é essa a sua função, e de repente sumiu.

Para que vocês, caros leitores, tenham uma real amplitude de até aonde vai à sanha desses facínoras, outro dia esse mesmo boneco, foi atacado por elementos que lhe deram um belo de um sopapo, arrancando sua cabeça que saiu rolando pelo meio da avenida, quase sendo atropelada pelos automóveis, ônibus e caminhões que por ali trafegam.

Graças à presença de espírito e de humanidade de algumas crianças que passavam pelo local, estas foram recolhendo: cabeça de um lado, o capacete de outro, o óculos de segurança de outro, a máscara em outro lugar ainda, e contando com muita sorte o boneco saiu somente com um pequeno raspão bem próximo de seus belos olhos azuis. O seu patrão o Sr. Marcelo, apesar do susto, ficou feliz por nada de mais grave ter acontecido com o “seu boneco”.

Para as pessoas que vêem avisos nos acontecimentos, esse sopapo, já era um mau presságio, um mau agouro, um indício de que nuvens negras pairavam sobre a cabeça do inocente boneco.

Voltemos ao dia 15/07/2008. Por volta das 18h, nosso amigo Marcelo, patrão e proprietário do boneco, se preparava para fechar o seu comércio, uma loja de venda de artigos de segurança, saiu para recolher seu garoto propaganda, digo, boneco propaganda, e foi neste momento que: suas pernas bambearam, seu coração disparou, sentiu que seu sangue não corria mais em suas veias. A visão que tinha do local onde deveria estar seu funcionário, estava vazio.

Perguntas começaram a se formular em sua cabeça: “Teria o boneco saído para tomar café!”; “Por ficar acorrentado a uma árvore o dia todo, embaixo de chuva ou embaixo de sol, teria se rebelado a fugido?”; “Teria se apaixonado, por alguma boneca de propaganda e fugido com ele?”; “Teria ele em virtude dos maus tratos, abandonado o serviço?”.

Não senhores, no local onde ficava o prestativo e laborioso boneco, achou-se um pequeno bilhete onde se podia ler: “Isso é um seqüestro, aguarde nosso contato a respeito das bases da negociação”. Seria verdade?

Esse seqüestro caiu como uma bomba no meio dos parceiros da já famosa “Curva de Rio”. Todos queriam sabe o que tinha acontecido. O disse me disse, corria solto no balcão. Um dos componentes da curva, o Adriano, logo foi dando seu pitaco: “Para registrar desaparecimento tem que esperar pelo menos 24 h.”. Álvaro, no alto de sua sabedoria, já embalado por duas ou três doses de uísque, falava para quem quisesse ouvir: “Para mim deve ter sido algum maníaco sexual” (pobre boneco), e palpitava mais ainda: “Eu acho que você (Marcelo) deveria instalar um ar System no boneco, assim cada vez que alguém pusesse as mãos nele, o alarme dispararia dizendo: “Esse boneco está sendo roubado, atenção, esse boneco está sendo roubado”; e as opiniões continuavam divergindo e acalorando mais e mais o assunto do seqüestro. Alguém de repente sugeriu ao Marcelo ir até a delegacia e dar parte, hipótese esta rapidamente descartada, já que não se poderia explicar porquê do boneco ficar acorrentado a uma árvore. Isso caracterizaria cárcere privado, e ao invés de se registrar um B.O. de seqüestro, de repente o próprio Marcelo poderia ficar detido por trabalho escravo, e quem sabe até por cárcere privado.


O tempo passou e os seqüestradores não mais entraram em contato. A pergunta que não queria se calar era: “Teria mesmo sido um seqüestro?”.

É sabido que muitas pessoas simulam seu próprio seqüestro, para encobrir ou justificar sumiços temporários que não podem ser explicados, mas um boneco faria isso?

Enquanto isso, o caso corria de boca em boca. A boataria também.

Chegavam à redação deste jornal, notícias das mais desencontradas sobre o paradeiro do nosso desaparecido boneco: “Parece que foi visto andando na BR 116, lá pelos lados de Itapecerica da Serra”. Outro ainda: “Foi visto dormindo lá na Praça da Lagoa”. E mais outra: “Foi visto dançando lá no Caipirão.” Como podemos ver, nenhuma dessas informações, eram de real credibilidade.

Mas, após uma ligação anônima uma real e verdadeira pista sobre nosso desaparecido boneco. No final de semana próximo passado, ele foi visto trabalhando em um restaurante da idade. Saímos atrás de pistas que confirmassem a informação e para nossa grata surpresa, era realmente verdade.

O seqüestro não era seqüestro. Tudo fora forjado pelo boneco, que já não agüentava mais a exploração promovida por seu ex-patrão. A vidinha que ele andava levando acorrentado a uma árvore, entregue a todo tipo de infortúnio, salário que não era pago nunca, muito próximo de uma insolação ou de uma pneumonia, já que trabalhava sujeito a todas as intempéries, foram motivos mais do que suficientes para que ele fugisse e procurasse um novo emprego.

Moral da história:
Diz o ditado: “A galinha do vizinho é sempre mais apetitosa.
Patrões tratem bem seus empregados, mesmo que estes sejam meros bonecos de olhos azuis, já que o comércio do vizinho pode ser mais atraente do que o seu para se trabalhar.

 
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