São Paulo, de 2008
 > Crônicas

Sem futuro

Otávio Nunes
por e-mail

Agora que velho estou, sinto-me mais pessimista do que fui no decorrer da vida. Este país não tem futuro pelo menos nos próximos cinqüenta anos. Ora, e nossos infantes? Eles serão nosso futuro. Qual nada. O moleque de hoje, entre 10 e 20 anos, quase nada sabe sobre nada. A não ser aqueles, bem-aventurados, da nossa elite (classe média para cima), que estudam em escolas particulares. E olha lá!

Quem estuda na escola pública, como meus dois petizes, estão com o futuro ameaçado. Eu os alerto constantemente. Embora à vezes acho que falo com dois postes. De quem é a culpa? Do Estado que não dá boa educação? Do aluno que não se interessa e se deixa levar pela atração das mídias? Ou o culpado sou eu, por não poder pagar escola decente pra eles? Não sei. Talvez todos os três agentes estejam envolvidos nesta tragédia.
O nível educacional da escola pública é o mais baixo possível. A Rádio Jovem Pan realiza um trabalho sobre o assunto, de um mês para cá. Mas isto é mais conhecido que nota de um real. Moro na periferia e percebo o quanto a molecada, da faixa etária citada acima, vive alheia do conhecimento, da cultura, das letras.

Não conseguem escrever uma frase com sujeito, verbo e complemento corretamente, como O menino trabalha na farmácia. Alguma destas palavras sai errada, como meninu, trabaia, falmacia e outras pérolas.
Não acreditam? É a pura verdade.

Minha filha, da oitava série, não sabe a tabuada do sete, não conjuga o verbo amar nem sabe o que ocorreu em 15 de novembro. Meu filho, no primeiro do médio, desconhece a fórmula da água e nem consegue dar o nome de três países da Europa ou de outro presidente brasileiro antes do Lula.

Vejo tudo isto e sinto-me impotente para resolver tanta ignorância.
Falo, falo, peço, levo eles a museus, a shows de MPB, tenho uma enormidade de livros em casa. Tudo isto para ver se a cabeça deles muda. É o máximo que posso e até onde vão meu dinheiro e minha inteligência. E não sinto resultados práticos.

Eles não lêem, nem se esforçam, nem ao menos abrem os livros didáticos que o Estado dá, impressos com o dinheiro do contribuinte. Minha filha vai à escola com uma mochila que o Stallone acharia pesada, de tanto livro dentro. Para quê?

E assim, por tabela, devem estar todos as crianças brasileiras, de famílias pobres, na faixa de 10 a 20 anos, ou a 15 anos, não importa.
Exceção talvez daqueles cujos pais pagam escola. Esta garotada de periferia, por ser de famílias desafortunadas, representa por baixo 90% da petizada brasileira. O restante, que talvez esteja em situação melhor, vem da elite.

Como sonhar com um país melhor se quase a totalidade dos brasileiros do futuro está comprometida, sem cultura, iletrada, sem profissão? Não temos futuro. A não ser os filhos dos abastados. O filho do médico, será médico, provavelmente. O mesmo com o do engenheiro, do empresário, do jornalista, do banqueiro etc. Mas os filhos do pedreiro, do cobrador de ônibus, da caixa de supermercado, da doméstica, o que serão?

Fico mais indignado pois não há saída em curto prazo. A educação, se melhorar futuramente, será por si mesma, naturalmente, paulatina. O Estado (os três níveis: municipal, estadual e federal) não tem condições de priorizar o setor educacional. Eu até que entendo o porquê e isto me deixa ainda mais irritado.
O mais importante é realmente a economia, a geração de empregos. Mais trabalho é a única forma de reduzir as outras mazelas que temos, como violência, má distribuição de renda, corrupção, favela, sem-terra, saúde, seguridade social.

É horrível esta constatação. Mas educação não pode ser prioridade, mesmo. Nem eu, se governante fosse, a colocaria na frente da expansão econômica. Não temos futuro porque erramos em algum lugar do passado e a correção é lenta.

O Brasil de hoje não é muito diferente daquele em que viveu Monteiro Lobato. Este sim um otimista inveterado. Sinto inveja dele.

Mais:

* Bosta à Parmegiana
* O Escorpião
* O cigarro pode te prejudicar
* Os guerreiros
* Fui eu
* Rua Guararapes

* Bons tempos os quinze
* Competente
* Em nome da moral

* Uma idéa, uma pergunta
* A Fábrica
*
!!!Que sono!!!
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