Sem
futuro
Otávio
Nunes
por e-mail
Agora
que velho estou, sinto-me mais pessimista do que fui
no decorrer da vida. Este país não tem
futuro pelo menos nos próximos cinqüenta
anos. Ora, e nossos infantes? Eles serão nosso
futuro. Qual nada. O moleque de hoje, entre 10 e 20
anos, quase nada sabe sobre nada. A não ser
aqueles, bem-aventurados, da nossa elite (classe média
para cima), que estudam em escolas particulares. E
olha lá!
Quem
estuda na escola pública, como meus dois petizes,
estão com o futuro ameaçado. Eu os alerto
constantemente. Embora à vezes acho que falo
com dois postes. De quem é a culpa? Do Estado
que não dá boa educação?
Do aluno que não se interessa e se deixa levar
pela atração das mídias? Ou o
culpado sou eu, por não poder pagar escola
decente pra eles? Não sei. Talvez todos os
três agentes estejam envolvidos nesta tragédia.
O nível educacional da escola pública
é o mais baixo possível. A Rádio
Jovem Pan realiza um trabalho sobre o assunto, de
um mês para cá. Mas isto é mais
conhecido que nota de um real. Moro na periferia e
percebo o quanto a molecada, da faixa etária
citada acima, vive alheia do conhecimento, da cultura,
das letras.
Não
conseguem escrever uma frase com sujeito, verbo e
complemento corretamente, como O menino trabalha na
farmácia. Alguma destas palavras sai errada,
como meninu, trabaia, falmacia e outras pérolas.
Não acreditam? É a pura verdade.
Minha
filha, da oitava série, não sabe a tabuada
do sete, não conjuga o verbo amar nem sabe
o que ocorreu em 15 de novembro. Meu filho, no primeiro
do médio, desconhece a fórmula da água
e nem consegue dar o nome de três países
da Europa ou de outro presidente brasileiro antes
do Lula.
Vejo
tudo isto e sinto-me impotente para resolver tanta
ignorância.
Falo, falo, peço, levo eles a museus, a shows
de MPB, tenho uma enormidade de livros em casa. Tudo
isto para ver se a cabeça deles muda. É
o máximo que posso e até onde vão
meu dinheiro e minha inteligência. E não
sinto resultados práticos.
Eles
não lêem, nem se esforçam, nem
ao menos abrem os livros didáticos que o Estado
dá, impressos com o dinheiro do contribuinte.
Minha filha vai à escola com uma mochila que
o Stallone acharia pesada, de tanto livro dentro.
Para quê?
E
assim, por tabela, devem estar todos as crianças
brasileiras, de famílias pobres, na faixa de
10 a 20 anos, ou a 15 anos, não importa.
Exceção talvez daqueles cujos pais pagam
escola. Esta garotada de periferia, por ser de famílias
desafortunadas, representa por baixo 90% da petizada
brasileira. O restante, que talvez esteja em situação
melhor, vem da elite.
Como
sonhar com um país melhor se quase a totalidade
dos brasileiros do futuro está comprometida,
sem cultura, iletrada, sem profissão? Não
temos futuro. A não ser os filhos dos abastados.
O filho do médico, será médico,
provavelmente. O mesmo com o do engenheiro, do empresário,
do jornalista, do banqueiro etc. Mas os filhos do
pedreiro, do cobrador de ônibus, da caixa de
supermercado, da doméstica, o que serão?
Fico
mais indignado pois não há saída
em curto prazo. A educação, se melhorar
futuramente, será por si mesma, naturalmente,
paulatina. O Estado (os três níveis:
municipal, estadual e federal) não tem condições
de priorizar o setor educacional. Eu até que
entendo o porquê e isto me deixa ainda mais
irritado.
O mais importante é realmente a economia, a
geração de empregos. Mais trabalho é
a única forma de reduzir as outras mazelas
que temos, como violência, má distribuição
de renda, corrupção, favela, sem-terra,
saúde, seguridade social.
É
horrível esta constatação. Mas
educação não pode ser prioridade,
mesmo. Nem eu, se governante fosse, a colocaria na
frente da expansão econômica. Não
temos futuro porque erramos em algum lugar do passado
e a correção é lenta.
O
Brasil de hoje não é muito diferente
daquele em que viveu Monteiro Lobato. Este sim um
otimista inveterado. Sinto inveja dele.
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