Ao voltar tarde
do trabalho, extenuada pelas horas de lida, em vez de suada, ainda
está perfumada. Esse capricho de mulher, que em outros momentos
me deixaria feliz, causa-me surpresa, por que seu corpo exala o
aroma de um sabonete que não usamos em casa. E seu cabelo
molhado mesmo sem chuva? Talvez seja o suor de tanto trabalho.
Outro fato que
me intriga é a mudança repentina de suas roupas. Cada
dia a vejo mais elegante, trajando novos vestidos e saias, em substituição
às antigas calças e conjuntinhos. As roupas recentes
moldam melhor seu corpo esguio e deixam à mostra suas pernas
lisas e torneadas. Será que tudo isso é por mim?
Por essas e outras,
alterno instantes de alegria com extremos de melancolia em relação
a nós dois. Oh, Capitu da minha vida, penso que suas mudanças
de atitude são para me despertar ou para me depreciar.
E quanto a mim?
Será que mudei negativamente a seus olhos e não percebi?
Acredito que continuo o mesmo. Ou melhor, acho até que aperfeiçoei
minha mesmice, meu cotidiano, minhas manias e a forma burocrática
e didática de pensar e agir. Talvez seja isso. Sou mais previsível
que ponteiro de relógio. Você, ao contrário,
sempre buscou novidades.
Confesso, constrangido,
que você até sacrificou seus ímpetos por mim.
E eu, egoísta, talvez, fazia de conta que não notava.
Apreciava incentivava e me aproveitava de sua submissão.