São Paulo, de 2008
 > Há 100 anos

Outubro de 1907

Consagração de Rui Barbosa
   

Advogado, jornalista, entusiasta da república e da abolição, vice-chefe do governo provisório, senador, deputado e, principalmente, grande representante do país, Rui Barbosa foi uma figura brilhante que impressionou brasileiros e estrangeiros.

Foi na Conferência da Paz em 1907, que sua brilhante atuação despertou admiração e reconhecimento internacional. O encontro tinha por objetivo reunir todos os países soberanos, que naquela época eram 40, para discutirem a questão do desarmamento ante a ameaça de uma guerra de proporções mundiais.

O Ministro das Relações Exteriores, o Barão de Rio Branco, apontou Joaquim Nabuco, diplomata e representante do país em Washington, como possível representante do Brasil nesta ocasião, mas ao contrário do desejo do Barão, a imprensa e o povo queriam ter Rui Barbosa, a consciência crítica dos brasileiros, como representante. E assim foi, nomeado embaixador extraordinário e plenipotenciário pelo então Presidente da República Afonso Pena, Rui Barbosa embarcou para Holanda em maio de 1907, juntamente com Eduardo S. Lisboa (2º delegado); Roberto Trompowski e Tancredro Burlamaqui de Moura (delegados adjuntos); Artur de Carvalho Moreira e Rodrigo Otávio (primeiros secretários) e Antonio Batista Pereira (além de outros segundos secretários).

A Conferência estava dividida em quatro Comissões. A primeira trataria do arbitramento e inquéritos de direito internacional. A outra seria sobre as Convenções e leis das guerras terrestres e estudo sobre o início de hostilidades (entre nações beligerantes). A terceira abordava os bombardeios de forças navais sobre territórios terrestres, colocação de minas de guerra, decisões sobre vasos de guerra, pertencentes a países beligerantes que se encontrem em portos neutros. E, por último, a propriedade privada em águas marítimas, contrabando de guerra, transformação de navios mercantes em vasos de guerra, bloqueio e destruição de navios apresados. A delegação brasileira se inscreveu para participar da primeira e da quarta comissão.

A despeito das expectativas, que previam a submissão do Brasil, o embaixador brasileiro fez-se ouvir e defendeu com veemência a igualdade dos Estados soberanos diante da ordem juridíca internacional. Defendeu a política como ciência, ética e história. Abordou temas sensíveis, como o fato das grandes potências usarem a moratória como pretexto para invasões territoriais. Aos poucos o pequeno baiano ganhou grande admiração dos participantes da Conferência.

Durante o encontro o diplomata brasileiro voltou a rechaçar a supremacia da potência do norte na política internacional, como já havia feito no ano anterior na Conferência Pan-Americana.

Houve, também, um grande debate em torno da discussão ou não dos temas de teor político. Enquanto o representante russo pleiteava o banimento de tais pautas, o representante brasileiro, astutamente defendia a relevância dos assuntos políticos para a realização dos objetivos da Conferência. Rui Barbosa com um brilhante discurso, em francês, encerrou a questão.

O jurista criticou o projeto das grandes nações de criar um Tribunal para Apresamento de Navios que atendiam somente seus interesses.

Outro ponto culmimante do encontro foi a discussão sobre a construção de uma Corte Permanente de Justiça, as grandes potências da época – EUA, Alemanha e Inglaterra – propunham que apenas as nações mais fortes militarmente deveriam compor este Tribunal Internacional. Mas, mais uma vez, numa incrível intervenção, Rui Barbosa argumenta que se o poderio militar fosse eleito como critério para a seleção dos membros da Corte de Justiça haveria uma corrida armamentista que estimularia a belicosidade entre os povos e, em última instância, iria contra todos as metas daquele encontro.

Em 18 de outubro de 1907, ao final da Conferência, o Embaixador extraordinário brasileiro ganhou as páginas dos jornais internacionais que contavam os triunfos que obteve na Conferência de Haia.

Ao retornar para o Brasil, o povo envaidecido com o desempenho do brasileiro o recebeu com entusiasmo. O Barão de Rio Branco recebeu o jurista com um grande abraço de gratidão. "O moço franzino do Ginásio Baiano abrira suas imensas asas de intelectual e patriota e poderia descansar sobre os louros da missão. Mas esse não era o seu temperamento. O guerreiro das idéias logo retomaria seu rumo" (Silva, Professor Raul Mendes). O Águia de Haia logo alçaria um novo vôo.


  1907
 
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