Advogado,
jornalista, entusiasta da república e da
abolição, vice-chefe do governo provisório,
senador, deputado e, principalmente, grande representante
do país, Rui Barbosa foi uma figura brilhante
que impressionou brasileiros e estrangeiros.
Foi
na Conferência da Paz em 1907, que sua brilhante
atuação despertou admiração
e reconhecimento internacional. O encontro tinha
por objetivo reunir todos os países soberanos,
que naquela época eram 40, para discutirem
a questão do desarmamento ante a ameaça
de uma guerra de proporções mundiais.
O
Ministro das Relações Exteriores,
o Barão de Rio Branco, apontou Joaquim Nabuco,
diplomata e representante do país em Washington,
como possível representante do Brasil nesta
ocasião, mas ao contrário do desejo
do Barão, a imprensa e o povo queriam ter
Rui Barbosa, a consciência crítica
dos brasileiros, como representante. E assim foi,
nomeado embaixador extraordinário e plenipotenciário
pelo então Presidente da República
Afonso Pena, Rui Barbosa embarcou para Holanda em
maio de 1907, juntamente com Eduardo S. Lisboa (2º
delegado); Roberto Trompowski e Tancredro Burlamaqui
de Moura (delegados adjuntos); Artur de Carvalho
Moreira e Rodrigo Otávio (primeiros secretários)
e Antonio Batista Pereira (além de outros
segundos secretários).
A
Conferência estava dividida em quatro Comissões.
A primeira trataria do arbitramento e inquéritos
de direito internacional. A outra seria sobre as
Convenções e leis das guerras terrestres
e estudo sobre o início de hostilidades (entre
nações beligerantes). A terceira abordava
os bombardeios de forças navais sobre territórios
terrestres, colocação de minas de
guerra, decisões sobre vasos de guerra, pertencentes
a países beligerantes que se encontrem em
portos neutros. E, por último, a propriedade
privada em águas marítimas, contrabando
de guerra, transformação de navios
mercantes em vasos de guerra, bloqueio e destruição
de navios apresados. A delegação brasileira
se inscreveu para participar da primeira e da quarta
comissão.
A
despeito das expectativas, que previam a submissão
do Brasil, o embaixador brasileiro fez-se ouvir
e defendeu com veemência a igualdade dos Estados
soberanos diante da ordem juridíca internacional.
Defendeu a política como ciência, ética
e história. Abordou temas sensíveis,
como o fato das grandes potências usarem a
moratória como pretexto para invasões
territoriais. Aos poucos o pequeno baiano ganhou
grande admiração dos participantes
da Conferência.
Durante
o encontro o diplomata brasileiro voltou a rechaçar
a supremacia da potência do norte na política
internacional, como já havia feito no ano
anterior na Conferência Pan-Americana.
Houve,
também, um grande debate em torno da discussão
ou não dos temas de teor político.
Enquanto o representante russo pleiteava o banimento
de tais pautas, o representante brasileiro, astutamente
defendia a relevância dos assuntos políticos
para a realização dos objetivos da
Conferência. Rui Barbosa com um brilhante
discurso, em francês, encerrou a questão.
O
jurista criticou o projeto das grandes nações
de criar um Tribunal para Apresamento de Navios
que atendiam somente seus interesses.
Outro
ponto culmimante do encontro foi a discussão
sobre a construção de uma Corte Permanente
de Justiça, as grandes potências da
época – EUA, Alemanha e Inglaterra
– propunham que apenas as nações
mais fortes militarmente deveriam compor este Tribunal
Internacional. Mas, mais uma vez, numa incrível
intervenção, Rui Barbosa argumenta
que se o poderio militar fosse eleito como critério
para a seleção dos membros da Corte
de Justiça haveria uma corrida armamentista
que estimularia a belicosidade entre os povos e,
em última instância, iria contra todos
as metas daquele encontro.
Em
18 de outubro de 1907, ao final da Conferência,
o Embaixador extraordinário brasileiro ganhou
as páginas dos jornais internacionais que
contavam os triunfos que obteve na Conferência
de Haia.
Ao
retornar para o Brasil, o povo envaidecido com o
desempenho do brasileiro o recebeu com entusiasmo.
O Barão de Rio Branco recebeu o jurista com
um grande abraço de gratidão. "O
moço franzino do Ginásio Baiano abrira
suas imensas asas de intelectual e patriota e poderia
descansar sobre os louros da missão. Mas
esse não era o seu temperamento. O guerreiro
das idéias logo retomaria seu rumo"
(Silva, Professor Raul Mendes). O Águia de
Haia logo alçaria um novo vôo.